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Pescadoras do ES sobre rompimento da barragem: "Somos atingidas de novo a cada maré"

  • 07/11/2018


Creusa Campelo herdou da mãe e da avó a atividade de catadora de caranguejo. A prática se tornou inviável desde dezembro de 2015 - Créditos: Mídia Ninja
Creusa Campelo herdou da mãe e da avó a atividade de catadora de caranguejo. A prática se tornou inviável desde dezembro de 2015 / Mídia Ninja

“Minha avó era catadora de caranguejo, minha mãe também, e eu também. A nossa sobrevivência era todinha de caranguejo”, resume Creusa Campelo da Silva, moradora da comunidade de Barra Nova, no município São Mateus, no litoral norte do Espírito Santo. O mar e o rio Cricaré, fonte de sustento dos pescadores do local, foram contaminados pelo rompimento da barragem do Fundão da mineradora Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton. A região foi reconhecida pelo Comitê Interfederativo (CIF) como atingida pelo maior desastre socioambiental do país, que completa três anos nesta segunda-feira (5).

A lama com rejeitos de minério de ferro chegou à comunidade em dezembro de 2015, cerca de um mês depois do rompimento da barragem em Mariana (MG). “Começou a dar tontura, coceira e bolhas no corpo. Ninguém sabia o que era. Depois descobrimos que era do rejeito da Samarco”, relata Creusa.

A região abriga 22 comunidades que tradicionalmente viviam da pesca artesanal, inviabilizada após o rompimento da barragem. Eliane Balke, pescadora, conta que a água do rio Cricaré ficou suja e com cheiro forte, causando a morte de peixes e outros animais. “Estamos sendo atingidas a cada maré. O crime da Renova, renova a cada maré”, diz Balke, em referência a Fundação Renova, criada para atuar na compensação dos impactos do rompimento da barragem.

Vizinha de Creusa e Eliane, Joselia das Neves conta que chegou a pescar um siri para comer. “Deu muita coceira e dor de barriga. Como não tinha outra opção tive que encarar”, diz. “Eu cresci ali, conheço aquele rio todo. Minha mãe sustentou os filhos com a pescaria e agora, que tenho uma família, vem um problema desses”, lamenta. Ela afirma que ainda não foi reconhecida como atingida pela Renova e sobrevive vendendo picolé.  “Antes eu podia ir no rio, pescar, fazer um pirão e meus filhos comiam. Agora eles não podem nem brincar na beira do rio”.

Desastre

A barragem de rejeitos da Samarco rompeu em Mariana e atingiu grande parte da bacia do Rio Doce. A lama percorreu mais de 600 quilômetros entre Mariana (MG) e a Linhares (ES), e afetou mais de 140 quilômetros de litoral. O Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) calcula que cerca de 2 milhões de pessoas foram atingidas, mas apenas 8.537 foram indenizadas por danos gerais e 254 mil indenizadas por desabastecimento de água.

São Mateus não está no trajeto feito pela onda de lama de rejeitos, mas teve seu principal rio contaminado quando os rejeitos atingiram o litoral do Espírito Santo. “Uma coisa é no Rio Doce, onde todo mundo sabe que a lama chegou. Outra coisa somos nós aqui, onde nem todos sabem o que essa lama faz. Tem gente que se alimenta com o pouco peixe que restou, mas passa mal. Tem vizinhos com pelo e cabelo caindo”, relata a pescadora Eliane.

Joselia das Neves, Eliane Balke e Creusa Campelo são pescadoras do município de São Matheus (ES) e foram atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão

Modo de vida alterado

Antes do dia 5 de novembro de 2015, Creusa acordava às 6h, preparava uma garrafa de café e um pote de farofa e saía com seus três filhos mais velhos de bote em busca de caranguejos. “Agora até o manguezal está morto”, sentencia. “Nós éramos acostumados a viver pescando, nadando. Hoje não pode fazer nada, só ficar em casa. É depressivo”.

As pescadoras relatam que houve aumento nos casos de depressão, alcoolismo e problemas de saúde da comunidade. Além das consequências na economia das famílias, a contaminação das águas transformou a rotina. “Acabou com a nossa vida. Além de matar peixe, caranguejo, acabou com nosso rio, nossa praia, com tudo”, resume.

Ao contrário de Josélia, Creusa e Eliane foram reconhecidas como atingidas. Creusa conta que recebe menos de R$ 2 mil, mas sua renda no verão com a venda de caranguejos girava em torno de R$ 5 mil. Eliane diz que foi reconhecida há menos de dois meses, após quase três anos de reivindicação.

As três participam da marcha organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) que iniciou no último sábado (4), em Mariana, e percorre a mesma trajetória da lama de rejeitos de minério de ferro, rumo ao litoral do Espírito Santo.

Fonte Brasil de Fato