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O papel da educação, dos educadores e educadoras na resistência democrática

  • 14/07/2016


Ao final de dois dias de intensas discussões, coube ao professor e doutor em educação, Gaudêncio Frigotto, da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a mesa de encerramento dos debates do Encontro Pedagógico Latinoamericano, em 08 de julho último.

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Sua intervenção foi sobre o papel da educação, dos educadores e das educadoras na resistência democrática. E, ao buscar inspiração para provocar a reflexão, referenciou o filósofo marxista, Antônio GRAMISCI: Instrui-vos, porque teremos necessidade de toda vossa inteligência. Agitai-vos, porque teremos necessidade de todo vosso entusiasmo. Organizai-vos, porque teremos necessidade de toda vossa força.

Frigotto reforçou esse pensamento para falar das oportunidades desse Encontro, por ele definido como um espaço para que todos e todas pudessem juntos – ouvir, pensar e se entusiasmar – na busca de elos profundos de força, para enfrentar as dificuldades. “Resistir na ditadura, ainda que essa tenha encarcerado e matado, do ponto de vista do confronto, sabíamos quem era o inimigo. Mas, agora o inimigo é mais profundo e precisa de mais energia nossa.”

Responsabilidade

Alguns pontos centrais foram colocados à luz do debate e das reflexões pelo professor Gaudêncio Frigotto no contexto da luta e da resistência. Ele exemplificou, aos educadores e educadoras, a responsabilidade de todos e todas no chão da escola, no tipo de aula que dão e da teoria que incorporam para interpretar a realidade.

Aos trabalhadores e às trabalhadoras  também falou porque eles precisam de mais força para resistir e superar esse golpe, que é um golpe cínico, neofascista e de pessoas traidoras.

Novamente referenciou o pensador filósofo Gramsci para dizer como ele ensina-nos a avaliar o tempo presente e o feito histórico, para se chegar a esse tempo. A construção coletiva, o não isolamento, o pensar e o agir sem as influências da cabeça de quem coloniza, foram apontados como posturas fundamentais e cotidianas na busca de uma nação soberana e autônoma.

Alguns exemplos, neste sentido, mereceram citações, entre eles: a Semana da Arte Moderna, que aconteceu em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, e que representou um grito de libertação visando romper as tendências artísticas que já vigoravam na Europa.

Outras lutas e resistências

Assim também foram citados os processos de luta e resistências que marcaram a Constituição de 1934, ao admitir, pela primeira vez, o voto feminino, uma vez que até então a mulher era considerada inepta. Esse movimento se deu com o Golpe Vargas e,nessa época, o acesso à educação pública era apenas para uma minoria. Os latifundiários e a burguesia se aliaram à classe política. Entre os seus propósitos estava o desejo de que o cidadão pudesse apenas desenhar o nome e assim poder votar. Neste momento, Vargas cria um sistema educacional financiado com dinheiro púbico, mas com organização privada.

A ditadura Vargas acabou e veio um grande avanço, que se deu a partir da resistência por meio da arte popular, do cinema novo e do teatro de rua. “De pé no chão também se aprende ler e o ícone do letramento para ensinar o brasileiro a ler chama-se Pedagogia do Oprimido, símbolo da resistência. Isso custou a Paulo Freire o exílio”, contou.

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Vem o golpe civil-empresarial-militar sustentado pela força do capital, das armas e da violência do Estado, único capaz de calar pela lei, de autorizar a matar por meio da lei. “O golpe civil-militar é o DNA do golpista da classe dominante brasileira e o grande ícone disso tudo é a grande mídia”, disse Frigotto. 

Desqualificação da escola pública

O professor também falou do processo de desqualificação da escola pública, construção remanescente da ditadura através da reforma educacional. Esse processo sustentou a ideia da educação como capital humano, deixando a mesma de ser um direito de todos.

A ditadura começou a criar no imaginário popular, com a ajuda da grande mídia que, se a pessoa quisesse subir na vida teria de ter boa educação.  “Mas a boa educação não é ofertada como direito para a classe trabalhadora. As estatísticas mostram que o ideário do capital humano começa a mercantilizar a educação”, diz o professor.

Década de 80

Considerada espetacular no debate educacional, é nessa época que se começa a ligar umbilicalmente a educação às relações sociais. Mas já na década seguinte, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (1990), vem o golpe da ditadura de mercado e chega o neoliberalismo dizendo, por meio dos teóricos do capital humano: “se eduque que você será incluído e terá emprego”. Já os teóricos neoliberais, por sua vez afirmam: “não há lugar para todos, só para os mais competentes e não há lugar pra você”. 

Isso, de acordo com Gaudêncio Frigotto é perigoso demais, porque mais um passo adiante vem o individualismo e a dificuldade das pessoas se organizarem em sindicatos. Portanto, a década de 90 é mais perniciosa para a educação até mesmo do que o período da ditadura.

E ao transitarmos pela última  década, perceberemos  que cresceu ainda mais o papel da educação e das organizações e diversos ganhos foram alcançados pelas classes populares. Foram 18 universidades e mais de 400 institutos federais. “A era Dilma/Lula foi protagonista desses avanços. Só não enxerga isso que está usando topeira. O erro talvez foi não prestamos atenção na privataria que ganhava o Estado por dentro. Fomos perdendo a perspectiva do projeto e a educação pública como mercado ganhou corpo” considerou o professor. 

Cresce a visão econômica de “todos pela educação” e esse sentimento passa a figurar no imaginário coletivo. “Agora, mais que a liberdade de ensinar, querem nos tiram a liberdade de educar. A burguesia, como diz o professor Miguel Arroyo, nunca foi contra a instruir, ela é contra educar”! Ao fazer essa consideração, Frigotto encerrou sua palestra lendo um artigo de sua autoria sobre a Escola Sem Partido. Por fim considerou: “Não somos idiotas, essa mordaça não vingará! Quem tem esse golpe na cabeça é o PSDB porque o PMDB tem pouco crânio, eles são o mordomo da corte”.

Click aqui e conheça a íntegra do artigo do professor Gaudêncio Frigotto.

Texto: Studium Eficaz
Fotos: Lidyane Ponciano