Avaliações mostram que uso de plataformas não melhora aprendizagem

O uso de plataformas educacionais (Google Classroom, Microsoft Teams, os Ambientes Virtuais de Aprendizagem – AVA, etc) nas escolas públicas, apresentadas como a “última novidade em modernização”, não têm sido tão eficaz e eficiente quando se trata de melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem. É o que mostra um estudo de pesquisadores da Rede Escola Pública e Universidade (REPU) a respeito da plataformização na rede pública de São Paulo e também é o que revela pesquisa do Instituto IPO e Associação dos Professores do Paraná, onde o governo estadual apostou todas as fichas neste modelo.

A EXPERIÊNCIA PAULISTA
Conforme a revista Carta Capital, a pesquisa analisou o desempenho de alunos do Ensino Médio no Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), entre 2023 e 2024, e cruzou os dados com o índice de uso das plataformas, instituído pela Secretaria de Estado da Educação. A conclusão é que a frequência de uso dessas ferramentas não teve impacto relevante nos resultados. “Os dados mostram que entre as escolas que registraram alguma melhora no Saresp, há aproximadamente o mesmo número de estudantes em escolas com um índice de uso das plataformas baixo (334.522 alunos), e alto (321.824 alunos)”1. Ou seja, usar ou não as plataformas não muda em nada ou muito pouco a qualidade do ensino e da aprendizagem.

Em contrapartida, a sobrecarga de trabalho dos (as) professores (as) e gestores (as) é evidente. O controle de informações sensíveis de estudantes e suas famílias pelas gigantes da tecnologia, as chamadas big techs (Google, Amazon, Microsoft, etc) é outro grave problema.

Além destas questões, a plataformização não assegura o acesso igualitário à tecnologia digital a todos os alunos e é uma ferramenta que pode criar tensões no ambiente escolar com o aumento da vigilância, do controle sobre alunos e professores; com o incentivo à censura sobre o conteúdo pedagógico, entre outras consequências nefastas a uma educação crítica, dialogal e inclusiva.

PROFESSOR: UM EXECUTOR DE TAREFAS
Implantadas inicialmente durante a pandemia de Covid 19 para evitar a aglomeração nas salas de aula, as plataformas passaram de ferramentas auxiliares no processo de ensino e aprendizagem a substitutos dos (as) professores (as), que se tornaram alimentadores e produtores de conteúdo, invertendo a lógica do diálogo que deve permear o processo educativo no território onde ele acontece, em relação aberta e democrática com a comunidade escolar.

“Essas plataformas também não estão livres da lógica do capital. Elas operam de acordo com o interesse das empresas que as criam e, muitas vezes, servem para aprofundar a alienação do trabalho docente. O professor, em vez de ser um mediador crítico do processo de ensino, é transformado em um executor de tarefas programadas, perdendo sua autonomia. As plataformas educacionais tornam-se instrumentos de controle sobre o conteúdo, o tempo e as formas de aprendizagem, limitando a criatividade e a reflexão crítica no processo de ensino” 2, afirma Maura Sandra da Silva.

A EXPERIÊNCIA DO PARANÁ
No Paraná, o governo estadual também investiu maciçamente em plataformas de educação. “São cerca de 20 plataformas usadas nas escolas, muitas de uso obrigatório, com a adesão monitorada de perto pelo governo”, informa o jornal Brasil de Fato. A adoção massiva de aplicativos e programas são utilizados para a gestão pedagógica.
A pressão por metas e a competição entre as instituições são incentivadas por políticas como o “Desafio Paraná”.
“Nós não estamos dando aulas, estamos apenas preenchendo plataformas”, critica o professor de História, João Paulo da Rocha. “Há uma pressão muito forte, estamos trabalhando apenas por metas, mas o resultado prático não está acontecendo”, complementa.

No caso do Paraná, educadores e alunos relatam sobrecarga de tarefas, comprometimento da saúde mental, falta de estrutura, dificuldades técnicas e incompreensão dos objetivos da transição digital.
Segundo pesquisa do Instituto IPO e da APP-Sindicato, que representa os professores da rede estadual, 83% dos educadores afirmam que as plataformas não melhoraram o aprendizado. Além disso, 72,3% dizem que as escolas não têm equipamentos suficientes para atender às metas estabelecidas pela Secretaria da Educação 3.

A TENTATIVA MINEIRA
Em Minas Gerais, o governo estadual também anunciou um investimento de cerca de R$ 40 milhões para “modernizar os ambientes de aprendizagem digital e melhorar a gestão das escolas estaduais”.

Segundo a Secretaria de Estado da Educação, uma das principais novidades é a adoção da plataforma educacional Google Workspace for Education Plus, que estará disponível a partir do início do ano letivo, em fevereiro. Conforme o governo, com investimento de R$ 30,6 milhões, a parceria beneficiaria cerca de 245 mil servidores e mais de 1,36 milhão de estudantes matriculados nos anos finais do ensino fundamental, ensino médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA)4.

Por enquanto, ainda não se sabe qual a consequência real da plataformização em Minas, mesmo porque nenhuma das conquistas associadas a melhorias na aprendizagem ou letramento, anunciadas pela própria Secretaria de Estado da Educação, são associadas ao uso de plataformas. Contudo, a julgar pelas constantes investidas contra o ensino público no Estado e às políticas de desvalorização dos trabalhadores em educação, certamente, terão como objetivo principal a mercantilização, a privatização da educação pública, a apropriação de dados de alunos, pais e professores, a vigilância e mais desvalorização de trabalhadores (as) em educação.

Referências:

(1) Revista Carta Capital. Consultado em:

Investimento milionário de Tarcísio e Feder em plataformas não melhorou o aprendizado, aponta estudo

(2) “A Implantação das Plataformas Educacionais no Estado do Paraná e os Impactos na Organização do Trabalho Docente”, da Silva, Maura Sandra. Consultado em: https://www.editorarealize.com.br/editora/ebooks/conedu/2024/GT19/TRABALHO__EV200_MD5_ID19597_TB8044_28102024154924.pdf

(3) Jornal Brasil de Fato. Consultado em: https://www.brasildefato.com.br/2024/08/20/nao-estamos-dando-aulas-apenas-preenchendo-plataformas-afirmam-professores-da-rede-publica-do-parana/

(4) Secretaria de Estado da Educação. Consultado em:
https://www.educacao.mg.gov.br/governo-de-minas-investe-r-40-milhoes-em-ferramentas-digitais-inovadoras-na-educacao/

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1 Comentário. Deixe novo

  • Glicéria Maria de Sousa
    04/08/2025 07:53

    Eu, que já participei ativamente da educação de crianças, jovens e adultos, seja em sala de aula, ou no serviço administrativo, vejo essas mudanças, e atitudes muito bem intencionadas, mas até que ponto toda essa mudança atingirá todos os alunos, como por exemplo, aqueles que ainda não têm acesso à informatização?
    Lembro-me do tempo em que teve início a implantação do serviço de informatização, e como foi difícil, simplesmente porque nem nós que fomos treinados como possíveis responsáveis pelas mudanças, estávamos preparados para tal.
    Hoje já podemos contar com serviços muito mais modernizados e práticos em se tratando da Informática, porque os auxiliares já se encontram muito mais preparados como articuladores que exercem essa função com absoluta ciência dos seus conhecimentos para levar aos que deles precisam.
    O que nós, antigos colaboradores com a educação esperamos é que tudo o que for passado hoje, seja de extrema responsabilidade.

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