Comunidade de Lagoa Santa reage contra fechamento de escola de ensino regular

Bairro de Vila Maria, comunidade em vulnerabilidade social, aponta custos com uniforme, transporte, material didático, fim de cursos e EJA como causa de exclusão, evasão e preconceito
A Escola Estadual Reparata Dias de Oliveira, uma das mais antigas instituições públicas de ensino em Lagoa Santa, com 41 anos de funcionamento, é outro estabelecimento que convive com a insegurança causada pelo polêmico projeto do governo estadual de transformação em Colégio Tiradentes.
A escola, localizada no bairro Vila Maria, uma comunidade onde grande parte da população vive em condições de vulnerabilidade social, oferece Ensino Fundamental, Médio, Educação Integral, profissionalizante e Educação de Jovens e Adultos (EJA) no horário noturno, atendendo a um total de 390 alunos.
As modalidades da E. E. Reparata Dias de Oliveira não são compatíveis com o modelo do Colégio Tiradentes e o destino de alunos é um dos muitos questionamentos feitos pela comunidade escolar.
PRECONCEITO
Para integrantes da comunidade escolar, a proposta do governo para a escola parte de um ponto de vista preconceituoso. Como está localizada num bairro onde são altos os índices de criminalidade, com registros de tráfico e violência, o governo vê menos resistência popular ao começar por ali o desmanche da escola pública.
Ocorre que a E. E. Reparata Dias de Oliveira passou por importantes mudanças, teve sua infraestrutura reformada, ministra aulas em vários noturnos, possui ensino técnico em Logística, ensino médio regular, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e é uma escola referência em seus 41 anos de existência.
FALTA DE PLANEJAMENTO
A falta de planejamento do governo estadual se reflete no açodamento da proposta pelo governo, o que leva a crer que tudo não passa de uma ação eleitoreira, já que em Lagoa Santa existe o Centro Educacional Mario Casassanta, um prédio desativado, propriedade do Estado, onde funcionava outra escola, que tem biblioteca, sala de aula. Atualmente cedido para a Prefeitura, o prédio não tem utilidade e poderia muito bem atender à iniciativa de implantação do Colégio Tiradentes.
OBSTÁCULOS
Em Lagoa Santa existem 5 escolas estaduais, das quais 4 atendem ao ensino médio. Uma eventual mudança para Colégio Tiradentes deixaria apenas 3 escolas do ensino regular para atender toda a demanda. Além disso, das 3 escolas que sobrariam, apenas 1 atende em Tempo Integral, portanto, excluindo os alunos desta modalidade, já as demais escolas não comportam estes estudantes.
Outro questionamento levantado pela comunidade, que está mobilizada contra a mudança, são os altos custos, já que os valores de uniformes, material didático e transporte do Colégio Tiradentes são incompatíveis com a realidade da grande maioria da comunidade de Vila Maria.
Além da E. E. Reparata de Oliveira, a escola mais próxima que atende em Tempo Integral está a 3 km de distância e os alunos não iriam para lá, porque a maioria deles trabalha e estuda no Reparata exatamente por ser mais próxima e facilitar a jornada de estudos e trabalho. As outras escolas estaduais no município são a Cecília Dolabela a 7 km e a Nilo Maurício a 12 km de distância, o que inviabilizaria a continuidade dos estudos de grande parte dos alunos, que precisam trabalhar.
Outro aspecto negativo da transição para Colégio Tiradentes seria o fim do ensino noturno da EJA e a consequente evasão e exclusão dos alunos, já que no modelo Tiradentes não existe a oferta de EJA.
PESSOAL
A situação das professoras e professores efetivos que serão deslocados é outro complicador, segundo a comunidade escolar, que não sabe quais seriam seus destinos. Atualmente a E. E Reparata Dias de Oliveira tem 30 funcionários efetivos e 37 contratados. Não há qualquer informação sobre como permanecerão seus vínculos com a escola, uma vez que os CTPMs (Colégios Tiradentes da Polícia Militar) são geridos pela Secretaria de Estado de Segurança Pública e não se sabe se ela vai absorver estes funcionários.
“A E. E Reparata Dias de Oliveira tem 41 anos e existe funcionária que trabalha desde o dia 1 na escola”, diz uma fonte que prefere não se identificar, para ilustrar o descaso do governo com funcionários e alunos.
No bairro Vila Maria a maioria da população é contrária à mudança. Os custos desta transição é um dos principais problema para a comunidade, mas também a evasão e a exclusão social provocada por tal medida. A insegurança causada pela falta de informações é outro motivo da reação popular. Primeiro, quanto ao acesso e às vagas para matrículas. A legislação atual dos Colégio Tiradentes estabelece como critérios de vaga a prioridade para filhos de militares, policiais, civis, bombeiros e integrantes da Defensoria Pública. E segundo porque grande parte das famílias, em situação de vulnerabilidade social, não teria como arcar com os custos da nova instituição de ensino.
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