Para 89,9% dos educadores, livros do “Aprender Já” são péssimos

Levantamento feito pelo Sind-UTE/MG mostra que material didático de R$ 348,4 milhões que levou à queda do ex-secretário de Educação são rasos, contém erros, se sobrepõem a outros materiais utilizados e estão em desacordo com o currículo escolar
Um levantamento realizado pelo Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG) junto aos educadores da rede estadual avaliou o material didático do programa “Aprender Já”. A aquisição irregular do material causou a queda do ex-secretário de Estado da Educação Rossieli Soares, por suspeitas no contrato de R$ 348,4 milhões, supostamente para reforçar o ensino de diversas disciplinas nas escolas públicas. O levantamento consolidou e analisou 2.093 manifestações registradas em formulário público de coleta de denúncias acerca do material didático “Aprender Já!”, distribuído pela Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) à rede estadual de ensino. As respostas foram coletadas entre 5 e 18 de maio de 2026, abrangendo, no conjunto bruto, 1.060 grafias distintas de municípios e 1.939 grafias distintas de escolas.
RESULTADO
O levantamento aponta que 89,9% dos educadores avaliam que os livros são “Péssimo” ou “Regular” (apenas 1,6% “Ótimo”), 48,7% relatam quantidade insuficiente de exemplares para os estudantes, e os problemas mais frequentemente apontados são conteúdo raso ou insuficiente (61,5%), inadequação à faixa etária (40,0%), exercícios sem relação com o conteúdo (34,1%), erros de diagramação e impressão (33,5%), erros de conteúdo (29,8%), desatualização (27,0%) e gabaritos errados (11,0%).
O programa Aprender Já desenvolvido pela Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, ainda em seu lançamento foi alvo de críticas pelo seu conteúdo, considerado raso demais e que pouco contribui para a melhoria da qualidade da educação; pela desvinculação com as questões regionais e por preterir o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), que é gratuito. Em razão das críticas, o Sind-UTE/MG decidiu avaliar o problema junto à categoria para saber sua dimensão e pertinência.
PONTOS CRÍTICOS
A apuração constatou ainda a imposição e fiscalização coercitiva para uso do material didático. Educadores fizeram relatos sistemáticos de obrigatoriedade de uso, com visitas e cobranças do Programa de Recomposição da Aprendizagem (PRA), das Superintendências Regionais de Ensino (SRE) e de analistas educacionais, e exigência de registros em sistemas como o Diário Escolar Digital (DED) e a plataforma Plurall, sob ameaça implícita de penalização.
DESALINHAMENTO CURRICULAR
O desalinhamento curricular foi outro aspecto abordado pelos professores da rede pública. Segundo eles há incompatibilidade do material com o Currículo de Referência de Minas Gerais (CRMG), com a BNCC e com os Planos de Curso da própria SEE/MG, incluindo presença reiterada de conteúdos de uma série em apostilas destinadas a outra série (caso emblemático: conteúdos de 3º ano do Ensino Médio nas apostilas do 2º ano, em diversas disciplinas).
SOBREPOSIÇÃO E DESPERDÍCIO
Outra questão destacada foi a sobreposição ao PNLD e desperdício de recursos. As escolas que já dispõem dos livros didáticos do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), com cobertura curricular adequada, recebem material redundante de qualidade inferior, com relatos explícitos de “mau uso”, “desperdício” e “sobreposição de gastos com fins duvidosos”.
USO DE IA
Os dados constatam ainda o uso opaco de inteligência artificial generativa. São vários os relatos de que os conteúdos textuais e a plataforma associada (Plurall) parecem ter sido produzidos ou substancialmente apoiados por inteligência artificial generativa, com referências bibliográficas inexistentes ou vagas, imagens geradas incorretamente (“a IA gerou uma imagem de ‘rabisco’ dizendo que era uma célula”) e gabaritos errados.
Seguem alguns comentários feitos por educadores na pesquisa realizada pelo Sind-UTE/MG:
“Livro “Aprender Já” – Física – 2° EM – Os conteúdos tratados como “recomposição de aprendizagem” são, na verdade, conteúdos do 3° EM de Física, estando em total desconformidade com o plano de curso. Além disso, os capítulos abordam conteúdos de Física (eletricidade) utilizando conceitos de Matemática (equação da reta, equação da circunferência) sendo uma abordagem rasa e descompromissada com o ensino de Física. Isso não é interdisciplinaridade mas utilizar a Física para ensinar Matemática.” — Trabalhador(a) em Educação, E.E. Carmelo Mesquita, Itapecerica.
“Só a aula 14 do livro de Física do 2º ano do Ensino médio, que está de acordo com o plano de curso do 1 trimestre. As primeiras aulas até a aula 7 são conteúdos do 3º ano. São duas aulas de Física no 2 ano, não tem como trabalhar o livro semanalmente, pois o plano de curso de Física é grande.” — Trabalhador(a) em Educação, Escola Estadual Emílio Jardim, Coimbra
“Livro de História 2° ano do Ensino Médio, conteúdo raso e sem relação com o plano de curso. Estamos sendo obrigados a usar esse livro, porém ele não está em acordo com o conteúdo do plano de curso e temos que usar assim mesmo, já que ameaçam que o PRA virá a escola para conferir se estamos usando.” — Professor(a), Escola Estadual João Felipe da Rocha, Nova Lima
“Não recebemos apostilas para o 3° ano. No 2°ano, conteúdo é raso e insuficiente. Mistura de conteúdo com o de 3°ano, na apostila de 2° ano, sem que o aluno tenha conhecimento do assunto abordado, como exemplo a genética e variabilidade genética.” — Professor(a), Escola estadual Dom Pedro II, Ouro Preto
“Todos os materiais são ruins, conteúdos rasos e aleatórios. Os conteúdos ‘não conversam’ com o Plano de Curso, sejam conteúdos do ano escolar ou pré-requisitos.” — Especialista, E.E. Modesto Antônio de Oliveira, Capitólio
“Livro do 2º ano em Física, o material compõe de matéria do 3º ano de Física ligada ao eletromagnetismo. Diferente do plano de aula/cronograma do Estado e dos livros em geral de ensino médio. Um professor de matemática citou que um dos materiais do ensino fundamental exigia ao aluno conhecimento de números inteiros como pré-requisito sendo que no cronograma ainda os alunos não poderiam resolver certas questões com essa exigência por ainda não terem passado por essa aula. Ou seja, fora da ordem lógica de ensino.” — Professor(a), E.E. Jose Elias / E.E. João Gonçalves Neto, São José da Lapa / Ribeirão das Neves
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