Transformação de Escola de Neves em Tiradentes pode causar evasão e exclusão, avalia professor

Em entrevista, Chicão diz que mudança anunciada pelo governo não se aplica à realidade da comunidade escolar de Santinho, em Ribeirão das Neves

O professor de Português e vice-diretor da Escola Estadual Nossa Senhora das Neves, Francisco Danilo de Lima Ferreira, o Chicão, fala em entrevista sobre o processo de transformação da escola em Colégio Tiradentes, conforme anúncio feito pelo governo do Estado. Localizada no bairro Santinho, em Ribeirão das Neves, a escola está situada num bairro da periferia e atende 250 alunos na modalidade de ensino médio em tempo integral, ensino fundamental em tempo integral, além de turmas do ensino regular. Trata-se da única escola com estas modalidades de ensino num raio de mais de 3,5 km e uma eventual mudança para Colégio Tiradentes, conforme, ele vai dificultar a vida de grande parte dos estudantes, provenientes de famílias carentes e sem condições de custear uniformes, material didático e transporte para outra localidade. Ele enumera ainda questões ligadas ao próprio território da escola, como aspectos comportamentais e culturais que podem causar evasão escolar e exclusão de alunos caso a mudança se efetive.
Leia a seguir a entrevista com o professor Chicão:

SIND-UTE/MG – Quais as implicações da transformação da escola pública regular em colégio Tiradentes, particularmente naquelas que funcionam em tempo integral e com ensino profissionalizante?

CHICÃO – Quando você pensa no processo de construção do ensino integral, que não é fácil, traz muita evasão para a escola devido a vários fatores. No caso, a questão social é um deles, porque muitos começam a trabalhar muito jovens, são alunos que precisam cuidar dos irmãos mais novos e controlar essa evasão é muito difícil. Quando você consegue fazer isso, estruturar o curso e fazer com que a comunidade compreenda a importância do ensino profissionalizante para o currículo filho no futuro, quando a gente consegue fazer isso, trocar uma escola integral para uma regular, ainda mais militar, com certeza é um impacto muito grande que vai fazer com que muitos alunos evadam da escola, tanto porque será uma modalidade militar, quanto porque não terá o curso profissionalizante.

SIND-UTE/MG – No caso específico de sua escola, qual a (s) maior (es) preocupação (ões)?

CHICÃO – A maior preocupação é com a situação dos alunos em relação ao deslocamento para outras escolas. Nós temos uma comunidade carente e não temos nenhuma certeza sobre como vai funcionar a questão dos alunos, uma vez que o governador afirmou que todo os que quiserem ficar poderão ficar, mas a gente sabe que há uma cobrança acadêmica no Colégio do Tiradentes, o que, naturalmente, exclui boa parte dos nossos alunos e tem também a questão financeira. A gente sabe que os uniformes do Tiradentes são caros. Há famílias com vários filhos e eles não conseguirão arcar com todos os custos, tanto do uniforme, como de material e transporte. Para além disso, a gente ainda tem ainda o fato de ser a única escola de ensino médio da região. A mais próxima de ensino médio fica a 3,5 km e somos a única com ensino técnico-profissionalizando num raio de 5 km.

SIND-UTE/MG – Como você avalia a maneira como está sendo anunciada a transformação das escolas públicas em colégios Tiradentes?

CHICÃO – A gente avalia de uma forma desrespeitosa, porque até o momento a escola não recebeu nenhuma informação via veículos institucionais, nem um telefonema, nada. O que a escola sabe até agora, tanto os gestores, os profissionais, os pais, os alunos, é apenas pela internet e pelos vídeos do governador em eventos em outras cidades, nem na nossa cidade ele esteve ainda ou se esteve não foi comunicado pra gente, porque a nossa escola não foi comunicada formalmente.

SIND-UTE/MG – Como a comunidade escolar e o entorno da escola tem reagido ao anúncio da mudança?

CHICÃO – A comunidade do entorno da escola tem reagido de forma negativa, porque as pessoas sabem que não terão condições de manter os filhos na escola, e sabem também que não terão condições mandar os filhos para escolas mais longe, como a situação da escola da praça. E ainda fica a dúvida dos pais em saber se as escolas que existem na cidade mesmo que distantes terão vagas para os alunos nos anos que estão estudando. Então, tudo isso faz com que a população não esteja querendo esta mudança.
A nossa escola passou por uma transformação física significante em relação ao clima escolar, que trouxe segurança para a comunidade. Então, a comunidade não acha justo, neste momento, agora que a escola está melhorando, que haja uma mudança tão drástica.

SIND-UTE/MG – Você acha que esta transformação (de escola pública regular em Colégio Tiradentes) é viável? O modelo de Colégio Tiradentes se aplica à realidade onde está inserida sua escola?

CHICÃO – Obviamente não podemos dizer que é um modelo que se aplica a nossa comunidade. Nós temos comunidades formadas por famílias que vivem basicamente com 1 salário mínimo e quando a gente pensa no uniforme do Tiradentes ele varia de R$ 700,00 a R$ 1.500, se a família comprar mais de uma peça. Então, a gente sabe que é algo com que as pessoas não conseguirão arcar. Isso sem falar em corte de cabelo, questão da postura dos alunos, atitudes e comportamentos, toda a identidade do aluno envolvendo gírias, palavras próprias de seu universo vocabular, enfim, tudo que é do território do aluno e demoraria tempo para se ajustar ao Colégio Tiradentes. E a gente sabe que o Colégio Tiradentes não vai dar esse tempo de adaptação ao aluno

SIND-UTE/MG – Você tinha falado sobre o perfil de sua escola e de outra mais ou menos com as mesmas características, escolhidas para se tornar Colégio Tiradentes. Poderia desenvolver mais este assunto. Por que exatamente estas escolas? é uma decisão política? Tem alguma componente de discriminação ou preconceito?

CHICÃO – Em conversa com servidores de outras escolas, a gente percebeu que há um perfil muito parecido. Há escolas que tinham muito problema com indisciplina no passado, com depredação e que passaram por uma mudança ao longo dos anos. Mas, houve uma melhoria na infraestrutura, nas relações interpessoais e justamente depois que foram feitas todas estas adequações, que a escola melhorou, melhorou índices, a infraestrutura, o clima, é que foram transformadas em Colégios Tiradentes. Então, infelizmente, fica parecendo pra gente que houve uma escolha a partir destes critérios. Quando estava largada, estava com muitos problemas, ninguém queria, agora, quando recebeu atenção, apresentou melhorias, aí, infelizmente, estão sendo entregues para uma outra rede, então, assim, isso nos deixa preocupados e acredito que possa ter alguma relação, sim.

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